O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual na reunião desta quarta-feira (29), movimento que estava alinhado com as expectativas do mercado. Contudo, a análise do Itaú Unibanco aponta para um cenário mais desafiador nos próximos meses, com inflação pressionada e espaço reduzido para novos cortes na taxa básica de juros.
A instituição financeira mantém a avaliação de que a autoridade monetária segue comprometida com o ciclo de flexibilização, mas agora sob maior cautela, diante da deterioração do ambiente inflacionário e da elevação das incertezas, especialmente no cenário externo. A decisão reflete a necessidade de equilibrar o estímulo à economia com o controle da inflação.
Pressões Inflacionárias Elevam Projeções do IPCA
O Itaú Unibanco revisou significativamente suas projeções para a inflação brasileira em seu último relatório econômico. A estimativa para o IPCA de 2026 saltou de 4,5% para 5,2%, um aumento expressivo de 0,7 ponto percentual. Para 2027, a projeção foi ajustada de 4,1% para 4,3%, evidenciando pressões inflacionárias mais persistentes do que o antecipado anteriormente.
A revisão para cima incorpora principalmente o impacto dos combustíveis, em meio à alta do petróleo no mercado internacional, e dos alimentos, pressionados por efeitos climáticos associados ao fenômeno El Niño. O banco destaca que o balanço de riscos para a inflação segue assimétrico para cima, ou seja, há mais fatores que podem elevar os preços do que reduzi-los.
Durante coletiva com jornalistas após a decisão do Copom, Fernando Gonçalves, superintendente de Pesquisas Econômicas do Itaú, afirmou que a desancoragem das expectativas de inflação continua sendo um dos principais pontos de atenção para o Banco Central, especialmente em horizontes mais longos. Esse descolamento das expectativas em relação à meta oficial representa um desafio adicional para a condução da política monetária.
Taxa Selic Deve Encerrar Ciclo em Patamar Mais Elevado
Diante do cenário inflacionário mais pressionado, o Itaú elevou sua projeção para a taxa Selic ao final do ciclo de cortes. A expectativa agora é de juros em 13,25% em 2026, ante 13,00% anteriormente projetados. O ajuste de 0,25 ponto percentual reflete a necessidade de manter a política monetária mais restritiva por mais tempo.
Apesar da revisão, o banco avalia que o Copom ainda pretende seguir com o ciclo de flexibilização, mas em ritmo gradual e cauteloso. A expectativa é de novo corte de 0,25 ponto percentual na próxima reunião do comitê, mantendo o padrão de reduções mais modestas.
“Nos parece que o comitê quer continuar cortando os juros em passos pequenos”, disse Gonçalves durante a coletiva. O economista indicou que eventuais ajustes na condução da política monetária tendem a ocorrer por meio da extensão do ciclo, com possibilidade de interrupção antecipada dos cortes caso o cenário inflacionário continue se deteriorando.
Banco Central Amplia Flexibilidade na Condução da Política Monetária
Um dos pontos de destaque do comunicado do Copom foi a inclusão da possibilidade de ajuste na extensão do ciclo de cortes, além do ritmo. Na avaliação do Itaú, essa mudança amplia a flexibilidade do Banco Central diante do cenário mais incerto que se desenha para a economia brasileira e global.
Gonçalves ressaltou que a menção à extensão do ciclo introduz a possibilidade de mudanças no tamanho total do processo de flexibilização, a depender da evolução dos dados econômicos. Essa abordagem permite ao Banco Central ajustar sua estratégia conforme novos indicadores de inflação, atividade econômica e cenário externo se materializem.
A estratégia demonstra que a autoridade monetária está preparada para interromper os cortes antes do previsto, caso seja necessário para garantir a convergência da inflação para a meta estabelecida. Essa postura mais cautelosa reflete o aprendizado com ciclos anteriores e a preocupação com a credibilidade da política monetária.
Atividade Econômica Resiliente e Projeções de Crescimento
Do lado da atividade econômica, o Itaú manteve suas projeções de crescimento do PIB em 1,9% para 2026 e 1,7% para 2027. Os dados recentes indicam alguma resiliência da economia brasileira no curto prazo, com setores como serviços e consumo apresentando desempenho positivo.
No entanto, o banco destaca que o ambiente externo mais volátil e o crédito mais restrito devem limitar uma aceleração mais forte da atividade nos próximos trimestres. A combinação de juros elevados com incertezas globais tende a manter o crescimento em patamares moderados, abaixo do potencial da economia.
O Itaú também revisou suas projeções para o câmbio, com o dólar esperado em R$ 5,15 em 2026 e R$ 5,35 em 2027. As estimativas refletem um ambiente mais favorável para moedas emergentes e o papel do Brasil como exportador de petróleo, beneficiando-se da valorização da commodity no mercado internacional.
Cenário Fiscal e Impactos para o Mercado
Na frente fiscal, o Itaú manteve a projeção de déficit primário em -0,5% do PIB em 2026 e -0,6% em 2027. Parte da melhora conjuntural das receitas, impulsionada pelo petróleo, deve ser utilizada para mitigar o impacto da alta dos combustíveis sobre a economia doméstica.
O cenário fiscal segue como ponto de atenção para investidores e analistas, especialmente considerando os desafios de médio prazo relacionados ao cumprimento do arcabouço fiscal e à sustentabilidade da dívida pública. A capacidade do governo de equilibrar as contas públicas será determinante para a trajetória dos juros e da inflação.
Para o mercado de renda variável, a manutenção de juros elevados por mais tempo tende a pressionar as avaliações de ações, especialmente de empresas mais endividadas ou dependentes de crédito. Por outro lado, empresas exportadoras e ligadas a commodities podem se beneficiar do cenário cambial e da alta do petróleo.
Perspectivas e Próximos Passos do Banco Central
O cenário desenhado pelo Itaú incorpora volatilidade maior à frente, especialmente com o avanço do ciclo eleitoral e as incertezas relacionadas ao cenário internacional. A próxima reunião do Copom será fundamental para confirmar a trajetória de cortes graduais ou sinalizar eventuais mudanças na estratégia.
Os investidores devem acompanhar de perto os indicadores de inflação, especialmente os componentes mais sensíveis como alimentos e combustíveis, bem como a evolução das expectativas de inflação medidas pelo Boletim Focus. Qualquer sinal de desancoragem adicional pode levar o Banco Central a adotar postura ainda mais cautelosa.
O mercado também monitorará os desdobramentos do cenário externo, incluindo a política monetária nos Estados Unidos, a evolução dos preços das commodities e possíveis choques geopolíticos que possam afetar o Brasil. A combinação desses fatores determinará se o Copom conseguirá manter o ritmo de cortes ou se precisará interromper o ciclo de flexibilização antes do esperado.
Este artigo é de natureza jornalística e informativa. Não constitui recomendação de investimento. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.
Fonte: Money Times