A mineradora norte-americana USA Rare Earth (USAR) anunciou nesta segunda-feira, 20 de janeiro, a assinatura de um acordo definitivo para adquirir 100% do Grupo Serra Verde, empresa brasileira responsável pela única operação de grande escala fora da Ásia capaz de produzir todos os quatro elementos magnéticos essenciais de terras raras. A transação movimenta o mercado de renda variável e posiciona o Brasil estrategicamente na cadeia global desses minerais críticos.
A operação está avaliada em aproximadamente US$ 2,8 bilhões, equivalentes a cerca de R$ 14 bilhões pela cotação atual do dólar. Do valor total, US$ 300 milhões serão pagos em dinheiro, enquanto a maior parte da transação, aproximadamente US$ 2,53 bilhões, será quitada através da emissão de 126,849 milhões de novas ações da USAR, considerando o preço de US$ 19,95 por papel em 17 de abril de 2026.
Estrutura da Transação e Financiamento Estratégico
A estrutura financeira da operação envolve componentes que vão além do pagamento inicial. A transação inclui um financiamento de US$ 565 milhões junto à U.S. International Development Finance Corporation (DFC), destinado especificamente à expansão da mina localizada em Goiás. A empresa combinada contará com uma liquidez pro-forma de aproximadamente US$ 3,2 bilhões.
Na prática, a conversão do valor em participação acionária permite que os vendedores brasileiros continuem expostos ao potencial de valorização futura do negócio. Este modelo de pagamento híbrido demonstra a confiança dos atuais controladores do Grupo Serra Verde no crescimento projetado para a operação sob gestão americana.
Ativos Estratégicos e Capacidade Produtiva
Com a conclusão do negócio, a USAR passará a controlar integralmente a mina de terras raras Pela Ema e a planta de processamento em Goiás. Esta é a única operação em escala fora da Ásia capaz de produzir neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, elementos essenciais para fabricação de ímãs permanentes usados em veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos eletrônicos avançados.
O acordo também estabelece um contrato de compra de 15 anos para 100% da produção da fase inicial. Este contrato de fornecimento será executado por meio de um veículo financiado por entidades ligadas ao governo dos Estados Unidos e investidores privados, incluindo garantia de preços mínimos para a produção.
Projeções Financeiras e Expectativas de Crescimento
As projeções financeiras apresentadas pela USAR são ambiciosas. A expectativa é que o Serra Verde atinja um EBITDA anualizado entre US$ 550 milhões e US$ 650 milhões até o final de 2027. Para a empresa combinada, as estimativas apontam para um EBITDA que pode alcançar US$ 1,8 bilhão até 2030.
O fechamento da transação está previsto para o terceiro trimestre de 2026, estando sujeito às aprovações regulatórias necessárias tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. A operação deverá passar pelo crivo de órgãos antitruste e reguladores do setor de mineração em ambos os países.
Reação do Mercado e Valorização das Ações
A reação do mercado de ações foi imediata e expressiva. As ações da USA Rare Earth dispararam mais de 12% na Nasdaq por volta das 13h14 (horário de Brasília), sendo cotadas a US$ 22,26. O movimento foi particularmente significativo considerando que ocorreu em um dia de queda do índice, que recuava 0,55% no mesmo horário.
Parte do interesse estratégico manifestado pelos investidores está justamente na previsibilidade de receita garantida pelos preços mínimos estabelecidos no contrato de fornecimento de 15 anos. A mineradora brasileira contará com pisos de preços para os quatro tipos de terras raras no fornecimento de longo prazo com o governo dos EUA e investidores privados.
Contexto Geopolítico e Domínio Chinês
A operação ganha relevância especial quando analisada no contexto geopolítico do mercado de terras raras. A China domina cerca de 90% da oferta global de terras raras já processadas, criando uma dependência crítica para economias ocidentais em setores estratégicos.
Estados Unidos, países da União Europeia e outras economias desenvolvidas têm acelerado esforços para desenvolver cadeias produtivas próprias desses minerais, considerados estratégicos para a transição energética, a indústria eletrônica e o setor de defesa. A aquisição do Grupo Serra Verde se insere nessa estratégia de diversificação de fornecimento.
Segundo reportagem da Reuters, críticos têm apontado que os pisos de preços, que visam nivelar as condições competitivas com a China enquanto produtora dominante de terras raras, possuem o potencial de distorcer o mercado. No entanto, defensores argumentam que essa é uma medida necessária para equilibrar décadas de subsídios e vantagens competitivas do gigante asiático.
Análise do BTG Pactual e Perspectivas do Setor
Na avaliação do BTG Pactual, o anúncio marca um momento significativo para o cenário das terras raras ocidentais. Os analistas Leonardo Correa, Marcelo Arazi e Rodrigo Gotardo destacaram que a instituição tem defendido que a oferta ocidental, particularmente a do Brasil, está prestes a se tornar um ator cada vez mais importante no mercado.
“A transação da Serra Verde reforça essa visão. Como único ativo operacional de terras raras no Brasil, a Serra Verde detém uma clara vantagem de pioneirismo, com a maioria dos projetos de desenvolvimento visando a produção somente após 2028”, afirmaram os analistas em relatório.
Esta vantagem temporal é crucial, pois posiciona a operação brasileira para capturar participação de mercado em um momento de crescimento acelerado da demanda por terras raras, impulsionada pela eletrificação de veículos e expansão de energias renováveis globalmente.
Perspectivas Futuras e Próximos Passos
O processo de aprovação regulatória que se estende até o terceiro trimestre de 2026 será acompanhado de perto por investidores e analistas de mercado. A transação representa não apenas uma aquisição corporativa, mas um movimento geopolítico que pode redefinir as cadeias de suprimento de minerais críticos no Ocidente.
Para investidores interessados em exposição a esse setor estratégico, a operação oferece um caso de estudo sobre como empresas ocidentais estão estruturando aquisições para reduzir dependência de fornecedores asiáticos. O modelo de pagamento híbrido e os contratos de longo prazo com preços mínimos representam inovações na estruturação de negócios no setor de mineração.
Nos próximos meses, o mercado acompanhará o progresso das aprovações regulatórias e possíveis desdobramentos da transação, incluindo eventuais ajustes nos termos do acordo e a reação de autoridades brasileiras quanto à transferência do controle deste ativo estratégico para uma empresa norte-americana. A conclusão bem-sucedida desta operação pode abrir precedentes para novas transações envolvendo ativos minerais brasileiros considerados críticos para a segurança econômica de potências ocidentais.
Este artigo é de natureza jornalística e informativa. Não constitui recomendação de investimento. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.
Fonte: Exame