O prolongamento da guerra no Oriente Médio está gerando preocupações crescentes entre economistas e formuladores de políticas monetárias ao redor do mundo. Após sete semanas de conflito, os impactos acumulados sobre a economia global começam a se tornar mais evidentes, com a perspectiva de que novos dados econômicos revelem a extensão dos danos causados pela instabilidade geopolítica.
A segunda rodada de pesquisas de atividade empresarial, programada para divulgação na próxima semana, será crucial para avaliar se os choques iniciais sobre crescimento econômico e inflação se intensificaram durante o segundo mês de conflito entre Irã e Estados Unidos. A questão central que analistas buscam responder é se a deterioração das condições econômicas globais se acelerou ou estabilizou.
Índices PMI revelam sinais de deterioração nas principais economias
As leituras preliminares dos índices de gerentes de compras de abril em economias que vão da Austrália aos Estados Unidos serão divulgadas na quinta-feira. Segundo projeções da Bloomberg, os indicadores apresentam tendências divergentes entre as diferentes regiões econômicas.
Entre os países cobertos pelas projeções, Alemanha, França, zona do euro e Reino Unido devem mostrar uma deterioração mais ampla em seus índices econômicos. Por outro lado, os indicadores americanos tendem a permanecer praticamente estáveis, sugerindo maior resiliência da economia dos Estados Unidos diante das turbulências globais.
Os primeiros dados coletados após o início do conflito já haviam captado dois choques simultâneos: pressão sobre o crescimento econômico e aceleração da inflação. A nova rodada de pesquisas permitirá verificar se essa tendência dual se consolidou ou se intensificou.
O retorno do temor da estagflação
Os números que serão divulgados podem indicar em que medida a estagflação está se tornando uma ameaça real para a economia global. O termo, que remete à combinação problemática de inflação em alta com crescimento econômico emperrado dos anos 1970, foi utilizado por Chris Williamson, economista-chefe de negócios da S&P Global, compiladora dos PMIs, ao analisar os riscos apontados pela medida global em março.
A estagflação representa um dos cenários mais desafiadores para os formuladores de política monetária, pois exige equilibrar medidas que tradicionalmente são contraditórias: combater a inflação geralmente requer restrição monetária, enquanto estimular o crescimento demanda políticas mais expansionistas.
FMI alerta para riscos de recessão global
As novas pesquisas econômicas surgem após uma semana marcada por avaliações pessimistas em Washington, onde autoridades financeiras foram alertadas pelo Fundo Monetário Internacional sobre diversos cenários possíveis, incluindo algo próximo de uma recessão global.
A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, enfatizou em declaração à Bloomberg Television que mesmo com o cessar-fogo atual no Oriente Médio, os danos ao crescimento e à inflação não são facilmente reversíveis. Segundo Georgieva, mesmo que a guerra termine imediatamente, levaria tempo considerável até que a recuperação econômica ganhasse tração real.
“O impacto já está embutido”, afirmou a dirigente do FMI, destacando que os efeitos econômicos do conflito já se consolidaram nas cadeias produtivas e nos mercados globais, independentemente da evolução futura das hostilidades.
Bancos centrais avaliam respostas em ambiente de incerteza
Apesar do clima de pessimismo predominante, diversos formuladores de política monetária ainda demonstram cautela sobre como reagir aos dados econômicos que estão sendo divulgados. O economista-chefe do Banco Central Europeu, Philip Lane, descreveu como ele e seus colegas podem tratar relatórios como os PMIs ao definir a taxa de juros mais tarde neste mês.
Em declarações durante evento em Washington, Lane observou que as autoridades terão um conjunto rico de dados de pesquisa à disposição. Ele reconheceu que as pessoas que respondem a essas pesquisas estão observando o mesmo cenário global que os formuladores de política monetária. Por enquanto, segundo Lane, poucos terão uma ideia decisiva sobre o que vai acontecer nos próximos meses.
Autoridades do BCE também receberão na quinta-feira dados de confiança empresarial da França e, na sexta-feira, o índice de clima de negócios Ifo, indicador monitorado de perto na Alemanha. Os pares do Federal Reserve verão, também ao fim da semana, o índice de sentimento do consumidor da Universidade de Michigan.
Limitações da análise econômica em cenário de guerra
A diretora-gerente do FMI alertou que mesmo a análise mais abrangente da economia global feita por autoridades monetárias tem limitações significativas neste momento de turbulência geopolítica. Segundo Kristalina Georgieva, todos os formuladores de política precisam aprender a operar em um ambiente de incerteza elevada e permanente.
A Bloomberg Economics destacou que embora um acordo pareça estar à vista, capaz de encerrar a atual rodada de hostilidades entre Estados Unidos e Irã e aliviar os mercados de energia, é improvável que resulte em paz plena ou duradoura. Israel aparentemente não participa das negociações e continua a ver o Irã como uma ameaça estratégica.
A análise aponta ainda que a confiança entre Estados Unidos e Irã permanece baixa, com sinais de interpretações diferentes sobre pontos-chave das negociações, o que sugere tensões persistentes mesmo após eventual acordo.
Inflação e decisões monetárias em outras regiões
Em outras regiões do mundo, uma possível aceleração da inflação impulsionada pelos efeitos da guerra será monitorada em países como Canadá, Reino Unido e África do Sul. Além disso, decisões sobre taxas de juros em economias emergentes, da Turquia à Indonésia, estarão entre os destaques econômicos da semana.
O fechamento parcial da rota por onde passa um quinto do petróleo global e os ataques cruzados no front libanês expõem os limites da diplomacia americana e mantêm a paz em bases frágeis, o que continua alimentando volatilidade nos mercados de commodities energéticas.
A combinação de pressões inflacionárias com desaceleração do crescimento está forçando bancos centrais ao redor do mundo a recalibrar suas estratégias de política monetária, em um contexto onde as ferramentas tradicionais podem ter eficácia reduzida diante da natureza geopolítica dos choques econômicos atuais.
Os próximos dados econômicos serão determinantes para avaliar se o mundo está caminhando para um período prolongado de estagflação ou se as economias conseguirão absorver os impactos do conflito no Oriente Médio sem comprometer simultaneamente crescimento e estabilidade de preços. A divulgação dos PMIs de abril oferecerá a primeira indicação mais concreta sobre essa trajetória.
Este artigo é de natureza jornalística e informativa. Não constitui recomendação de investimento. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.
Fonte: InfoMoney