O bloqueio do Estreito de Ormuz transformou o mercado global de fertilizantes em uma nova arena de pressão geopolítica. A Rússia, segundo maior produtor e maior exportador mundial de fertilizantes, emerge como alternativa estratégica enquanto cerca de um terço dos suprimentos globais transportados por mar ficam retidos na rota que liga o Golfo Pérsico ao Mar Arábico.
O Kremlin passou a condicionar o acesso a esses insumos agrícolas essenciais ao alinhamento político de países compradores, estabelecendo uma estratégia que visa flexibilizar as sanções ocidentais impostas desde a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022.
Estreito de Ormuz e a dependência do Golfo Pérsico
Entre 2023 e 2025, os países do Golfo lideraram o fornecimento global de fertilizantes, com Irã, Catar e Arábia Saudita respondendo por 36% de todas as exportações de ureia, o fertilizante nitrogenado mais utilizado mundialmente. Gigantes agrícolas como Brasil, Austrália e Nova Zelândia dependem significativamente desses suprimentos.
O bloqueio inicial praticado pelo Irã e posteriormente pelos Estados Unidos interrompeu praticamente toda a movimentação pela estreita passagem marítima. Como os embarques russos não dependem dessa rota, Moscou consolidou-se rapidamente como fornecedor alternativo em momento crítico para o agronegócio global.
A ureia, produzida a partir de gás natural, sofreu aumentos de preço acompanhando a escalada nos valores do energético desde o início da guerra. Esse movimento pressionou ainda mais os custos de produção agrícola em escala planetária.
Dependência estratégica do Sul Global
Análise do Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR) aponta que economias em desenvolvimento apresentam particular dependência dos fertilizantes russos. As restrições ocidentais às compras de insumos russos, implementadas após a invasão da Ucrânia, levaram Moscou a diversificar rotas de exportação direcionadas ao Sul Global.
Em 2025, empresas russas passaram a fornecer aproximadamente um quarto das importações de fertilizantes de gigantes agrícolas como Brasil e Índia. Essa reorientação comercial fortaleceu a posição estratégica de Moscou justamente quando o bloqueio de Ormuz ampliou os temores de crise alimentar global.
No fim de março, Alexander Venediktov, vice-secretário do Conselho de Segurança da Rússia, declarou que o país está pronto para enviar fertilizantes ao Sul Global. A oferta, porém, vem acompanhada de condições políticas explícitas.
Condicionalidades políticas nos embarques
Segundo Agathe Demarais, pesquisadora sênior de Políticas Públicas do ECFR, Venediktov sugeriu que países receptores de fertilizantes precisariam apoiar agrupamentos liderados pela Rússia. Entre eles estão o BRICS, a Organização de Cooperação de Xangai e a Comunidade de Estados Independentes.
Moscou está transformando acesso aos suprimentos agrícolas em instrumento de pressão não apenas sobre o Sul Global, mas também direcionado a Estados Unidos e Europa. O objetivo declarado consiste em garantir flexibilização das sanções ocidentais impostas ao país.
Essa estratégia replica práticas anteriores do Kremlin. Durante a pandemia de covid-19, Moscou utilizou o acesso à vacina Sputnik V como ferramenta diplomática, oferecendo doses a países do Sul Global em troca de acordos econômicos ou alinhamento político.
Precedente da diplomacia de vacinas
A tática ficou particularmente evidente na América Latina durante a crise sanitária. Na Bolívia, Moscou vinculou entregas de vacinas ao desenvolvimento pela Gazprom do campo de gás de Incahuasi e à construção pela Rosatom de um centro de pesquisa em tecnologia nuclear.
Poucos meses depois, a Bolívia figurou entre cinco países latino-americanos que se abstiveram de condenar a invasão da Ucrânia pela Rússia nas Nações Unidas. Os outros quatro foram Cuba, El Salvador, Nicarágua e Venezuela.
O ECFR observa que, na maioria dos países, a diplomacia da vacina russa acabou fracassando devido a atrasos nas entregas, falta de transparência sobre dados clínicos e dúvidas quanto à qualidade das doses. Entretanto, a estratégia com fertilizantes apresenta dinâmica diferente.
Impactos no agronegócio brasileiro
O setor de fertilizantes brasileiro expressa preocupação tanto com os impactos diretos da guerra quanto com questões tributárias domésticas envolvendo PIS/Cofins. O Brasil, como importador relevante de fertilizantes russos, encontra-se particularmente exposto às condicionalidades geopolíticas impostas por Moscou.
A dependência de aproximadamente 25% das importações brasileiras de fertilizantes provenientes de empresas russas coloca o país em posição delicada entre pressões ocidentais por alinhamento e necessidades agrícolas concretas. O agronegócio nacional necessita dos insumos para manter produtividade e competitividade internacional.
O aumento de preços dos fertilizantes, impulsionado tanto pelo bloqueio de Ormuz quanto pela valorização do gás natural, pressiona custos de produção em toda a cadeia agrícola brasileira. Esse movimento pode impactar desde pequenos produtores até grandes operações de commodities destinadas à exportação.
Perspectivas para o mercado global
A combinação entre bloqueio de Ormuz e estratégia russa de condicionar exportações de fertilizantes a alinhamentos políticos configura cenário complexo para o agronegócio mundial. A possibilidade de crise alimentar global permanece como preocupação central de analistas e formuladores de políticas.
A efetividade da estratégia russa dependerá da duração do bloqueio de Ormuz, da capacidade de países do Golfo retomarem suas exportações e da disposição de nações importadoras em aceitar as condicionalidades impostas por Moscou. Países ocidentais buscam alternativas para reduzir dependência tanto do Golfo quanto da Rússia.
O desenvolvimento de capacidade produtiva doméstica de fertilizantes em grandes importadores como Brasil e Índia pode emergir como resposta estratégica de médio prazo. Entretanto, investimentos necessários e tempo de maturação de projetos limitam essa alternativa no curto prazo, mantendo vulnerabilidade atual.
Nos próximos meses, observadores acompanharão desdobramentos diplomáticos relacionados ao bloqueio de Ormuz e eventuais negociações para sua reabertura. Paralelamente, decisões de países importadores sobre aceitar ou recusar condicionalidades russas definirão novos contornos das relações comerciais e geopolíticas globais no setor de fertilizantes.
Este artigo é de natureza jornalística e informativa. Não constitui recomendação de investimento. Consulte um profissional habilitado antes de tomar decisões financeiras.
Fonte: InfoMoney